terça-feira, outubro 12, 2010

Cassius Clay


"I feel like a porcupine sleeping in a waterbed. It's fantastic to feel beautiful again."

In "Cassius Clay", The Wave Pictures

domingo, outubro 10, 2010

Árvores Dançantes em F menor

Hiroshi Nakamura


Troveja, o chão fervilha por entre a chuva e a pressão do alcatrão. Vejo árvores a esvoaçar à frente dos meus olhos e a velocidade do meu caminho não permite que as identifique ou distinga.

O som da impassível realidade ainda ecoa. O constrangimento perante a inexorabilidade do destino traçado e o olhar impotente trocado ainda queima o presente.

Encerra-se um capítulo, levantam-se fileiras, recontam-se espingardas e percebe-se que a guerra nunca passou sequer da sala de estratégia. Uma das partes nunca teve intenção de a ganhar. Nunca foi firme, nunca ousou.

Lá fora, o céu começou entretanto a ceder. Ironicamente, permitiu que alguns raios de sol fugissem, instalando uma falsa sensação de paz.

Escolhas. Sonhar ou quebrar.

segunda-feira, outubro 04, 2010

A superfície

"To be nobody but yourself in a world which is doing its best, night and day, to make you everybody else means to fight the hardest battle which any human being can fight; and never stop fighting."

E.E. Cummings


O peso dos costumes e trends deixa-me, por vezes, sonegado.

Tenho vontade de ultrapassar a superfície onde habita o conformismo acrítico e voltar a respirar livremente.


Ser cru, genuíno, dizer o que penso, omitir o que penso por mero tacto e não por pressão, gritar, rir, um rir vivo e sentido.

Cada vez mais é difícil fugir a este ciclo que nos oprime e nos força.

Como resposta, este mundo inventou algo tão genial quanto tortuoso: a rebeldia pré-concebida e instantânea. Observo muita rebeldia ordenada e contida, pertencendo a cânones tão ou mais rígidos e catalogadores do que aqueles que querem combater.

Perante este paradoxo não posso deixar de sorrir e continuar a tentar furar a superfície. O ar puro é alcançável.

segunda-feira, setembro 27, 2010

O outono da cidade




Chega o Outono à cidade, vejo-o através da janela do meu esconderijo diurno.

Embalado pelo ríspido latejar das janelas, sinto uma incontrolável vontade de o abraçar, um entusiasmo quase pueril que me apressa em transpor a porta de segurança para a rua.

Caminho com um sorriso fixado que não sei explicar mas que me limito a saborear. Observo o que me rodeia.

O frio envolve lentamente Lisboa por entre as esquinas de cada avenida, por entre o fumegar de um cigarro e o entrelaçar de um cachecol improvisado. O escurecer tem outro peso, anunciando o fim do dia com gravidade, acordando-nos para o mundo que vive lá fora, mais luminoso mas também mais discreto atento o maior peso de cada movimento, escolhido sob um critério apertado e exigente.

Vejo almas jovens, rotinas robotizadas, andares decididos e passos perdidos. A boca de uma mulher de meia-idade trava um solilóquio improvisado num banal café, inalando lentamente um cigarro. Esta imagem prende a minha atenção enquanto sigo focado no meu destino.

Estas são as imagens que esta cidade alimenta, devoradora nos seus sentidos, manipuladora no seu querer. Esta cidade faz-nos querer chamá-la de nossa, de lhe sentir a vertigem. O seu canto não nos deixa indiferente, nem aos mortos-vivos que nela abundam como a mulher amorfa que vi. A cidade, caprichosa, devolveu-lhe ingloriamente todos os desejos e expectativas que nela havia depositado, lançando, sem pudor, a seta da frustração e desilusão.

Vislumbrei outros rostos que reflectiam sucesso, luta e glória mas tenho de confessar que continuo sem conseguir esquecer a beleza melancólica daquele bafejar dorido e lento...

O Outono chegou à cidade.

domingo, setembro 26, 2010

There's nothing but rainbows and blue skies



That's where I am going!

O Perímetro do que sou

"A man writes because he is tormented, because he doubts. He needs to constantly prove to himself and the others that he's worth something. And if I know for sure that I'm a genius? Why write then? What the hell for?"

In "Stalker", de Andrei Tarkovski


Depois de um longo interregno, entendi que devia voltar a escrever. Não que não tivesse vontade antes mas por sentir as minhas fileiras cerradas, em modo de batalha, não me consegui motivar-me a fazê-lo. Parecia-me despropositado e perigoso agitar os fantasmas que havia guardado num baú velho e ferrugento.


Nestes últimos meses, a adrenalina esteve sempre nos píncaros do que o meu coração aguentava e o mundo encarregou-se de me distrair de mim próprio. Essa é a minha maior mágoa: sinto que perdi uma parte de mim porque estive sempre centrado em algo que me englobava mas que, simultaneamente, sugava a minha individualidade.


A beleza do que desejamos exerce, por vezes, uma monstruosidade inerente à sua força que corrompe, tritura e modifica o nosso espaço e presença quotidiana sem, contudo, deixar-nos sequer suspeitar desse facto. Camuflada, avança sobre nós, inebria-nos com o seu cantar enquanto nos aprisiona leve e suavemente...é tão doce essa prisão que não desconfiamos nem nos opomos, ainda que fugazmente.


Quando a cortina desce, agarramos a nossa vida ou ficamos presos no passado, ora repetindo a história passada, ora vagueando e cercando algo que se dilui, independentemente da importância que tal assumiu e do ímpeto que aí deixámos.


Escolho avançar, escolho-me a mim, não obstante guardar com carinho todas as vitórias e derrotas, individuais e colectivas, por que passei.


Assim, é necessário agora traçar novamente o perímetro do que sou. Este é um dos primeiros passos.


O giz avança já inexorável sobre o chão duro, tendo coberto uma área considerável. A porta de embarque foi transposta com sucesso e oiço-me novamente.


A mim e à fricção entre o meu ser e o mundo exterior, a seiva da árvore da vida que me alimenta os sonhos.


A viagem já começou porque só o presente encerra as chaves para o futuro que desejo.

domingo, janeiro 11, 2009

How do you measure a year?

Como se mede um ano?

Como se mede um turbilhão de emoções, umas escondidas, outras exacerbadas?
Umas frágeis e fugidias, enquanto outras ancoradas a cada passo que damos?

Que tal em sorrisos, em abraços que demos, em piscar de olhos mal sucedidos?
Em cafés tomados, em palavras que fomos perdendo (in)voluntariamente e em suspiros?

Cada um destes 365 dias tem algo de especial, algo que nos faça sorrir por dentro, ainda que por escassos segundos.

Estamos vivos!

terça-feira, dezembro 02, 2008

As palavras são coisas

O que são as palavras?

Na minha boca podem significar tanto ou tão pouco, ainda que com a mesma entoação.

Eu gosto de pensar nelas como um ponto de encontro com a consciência que tenho de mim.

Adorava tê-las como armas mortíferas, sem necessidade de recarregamento, para enfrentar todas as dificuldades quotidianas.

Sabes, às vezes basta-me usar um par de sílabas para demonstrar a importância que tens para mim...

Usando um poema de Bernardo Pinto de Almeida, tudo parece ecoar melhor neste meu recanto:

Se a tua boca as diz
Se no teu rosto as vejo
As palavras sao coisas
Quando as fere o desejo

E quando dizes mar
E quando dizes norte
Não sei se nao me acerco
De um bocado de morte

E quando dizes barco
Ou quando dizes esfera
Ha aguas que transbordam
E inundam a terra




As palavras sao coisas
As palavras sao um perigo
Se acaso as pronuncias
Quando nao estás comigo

E quando tu adormeces
Muda num sonho fundo
Tudo se desvanece
E deixa de haver mundo.



sexta-feira, novembro 28, 2008

Flatliners

"When I can't confront the doubts I have
I can't admit that maybe the past was bad
And so, for the sake of momentum
I'm condemning the future to death
So it can match the past."

Aimee Mann, Momentum in "Magnolia"


É tão ridículo sentir medo de sermos melhores do que somos ou já fomos apenas para não corrermos o risco de falhar.

As dúvidas enquanto elemento paralisante definem a condição humana. Definem-nos a todos.

Será que os mais corajosos apenas o são por se sentirem mais preparados? Arriscam por terem menor probabilidade de falhar?

Serão os mais corajosos apenas o que, tecnicamente, menos se boicotam a eles próprios e aos seus planos?

Talvez tudo se resuma a um mero quadro de riscos, gerido por alguém com alma de segurador.

E nesse quadro, nada melhor do que guardar a irreverência, manter a "normalidade" - na sua pior definição - e queixarmo-nos apaticamente de tudo.

Sermos Flatliners.

quinta-feira, novembro 27, 2008

She said...

"Why can't you be
Like a waterpik shower massager
A sweet reliable machine
To tell the truth
She don't feel less alone
Water massager’s the purest love she's ever known"


Third Eye Blind , Why Can't You Be? in Ursa Major

Temos todos tão pouco tempo para nos ouvirmos, tão pouca margem para renegar os nossos caprichos...

Seria tudo tão mais fácil se do outro lado da barricada apenas tivéssemos de enfrentar um instrumento mecânico dedicado a dar-nos prazer, com um botão de on & off.